A Educação para o Desenvolvimento surge no contexto dos processos de descolonização do pós-guerra e das campanhas humanitárias que se lhe seguem. Nessa altura pensava-se o futuro da humanidade como uma linha ascendente guiada pela noção de progresso, compreendida como sinónimo de crescimento económico.
Entre os países industrializados e os países ditos subdesenvolvidos cria-se o elo da Ajuda ao Desenvolvimento. Na Europa - antes devastada pela guerra e agora em fase de reconstrução e enriquecimento - a lembrança do sofrimento, a culpabilidade pela colonização e os sentimentos religiosos de piedade pelos mais desprotegidos propiciam o lançamento de acções junto das populações "ricas" com o objectivo de prestar auxílio aos "países pobres".
As Organizações Não-Governamentais (ONG) quiseram também participar neste movimento, em grande parte assegurado pelas Igrejas. O público europeu torna-se então "alvo" de campanhas de sensibilização, desemvolvendo-se assim sentimentos de compaixão face às situações de pobreza e miséria que ocorriam noutros continentes, com o intuito de angariar recursos financeiros (fundos) e humanos (voluntários) necessários à concretização de projectos nesses lugares distantes.
As lutas de libertação nacional e contra as ditaduras em várias partes do mundo, os novos movimentos sociais nos países industrializados, a crise petrolífera e a contribuição dos cientistas sociais, mudaram o conceito e a p´ratica da Educação para o Desenvolvimento. O acento passou a ser colocado nas relações de dependência entre "centro" e "periferia", exigindo-se uma nova ordem económica internacional mais justa. As meras descrições da miséria nos países do entaõ chamado "Terceiro Mundo" foram sendo substituídas por análises sobre as causas e as consequências do "desenvolvimento" e do "subdesenvolvimento". A visão do planeta repartia-se entre Norte, Sul, Leste, Oeste, de acordo com os interesses geo-estratégicos no contexto da Guerra Fria.
Mas na segunda metade da década de 70 descobrem-se o "norte" no Sul e o "sul" no Norte, pondo-se em causa uma visão simplista e tornando mais clara a ideia de "interdependência". Finalmente, havia problemas graves de desenvolvimento, tanto no Norte como no Sul - assim surgiram os conceitos de "falso desenvolvimento" (ou "mau desenvolvimento") e de "desenvolvimento auto-sustentado".
Em 1974, a Assembleia Geral da UNESCO aprovou uma resolução na qual se diz que "Educação para o Desenvolvimento é a educação para a compreensão, a paz e a cooperação internacionais e a educação relativa aos direitos do homem e às liberdades fundamentais".
O estabelecimento de tendências económicas hegemónicas a nível mundial, o empobrecimento de uma parte cada vez mais importante da humanidade, a revolução das tecnologias e, em particular, ads comunicações, a queda do Muro de Barlim e o desaparecimentos dos regimes ditos socialistas, a expansão de um "pensamento único", tornam os desafios deste início de século muito complexos. Simultaneamente, vivem-se dimensões que anteriormente apareciam como contraditórias: a escala planetária e o nível do pequeno espaço e do indivíduo.
Aumentam os problemas comuns a todos os homens e mulheres, independentemente dos locais concretos onde se encontram, crescem as situações que apelam a soluções globais: o fosso crescente entre todos aqueles (países, regiões, cidadãos) que acumulam riquezas e bem-estar e aqueles que deles são privados, as migrações provocadas pela degradação económica e social e pela violência, a desordem ambiental, a proliferação e o tráfico de armas, o terrorismo, a violação sistemática dos direitos humanos, as pandemias, o tráfico de droga...Neste contexto nasce o conceito de Educação Global, incluindo o posicionamento e a acção face ao desenvolvimento, ao ambiente, aos direitos humanos, à paz...
Em Novembro de 2001 o Conselho de Desenvolvimento da União Europeia aprovou uma resolução sobre a Educação para o Desenvolvimento em que afirma: "Considerando que, dada a interdependência global da nossa sociedade, a sensibilidade através da educação para o desenvolvimento e da informação contribui para reforçar o sentimento de solidariedade internacional e para criar um clima propício à emergência de uma sociedade intercultural na Europa; que essa mesma sensibilização contribui também para alterar os modos de vida, privilegiando um modelo de desenvolvimento sustentável para todos e, por último, para aumentar o apoio dos cidadãos à realização de esforços suplementares de financiamento público à cooperação para o desenvolvimento".
A Educação para o Desenvolvimento visa a mudança, a transformação do mundo em que vivemos, que hoje é o planeta e todo o espaço que o envolve. O seu horizonte inscreve-se na ideia de "educação ao longo da vida", porque para mudar é preciso conhecer, compreender, escolher, tomar decisões, assumir compromissos, criar alianças, arriscar, reflectir, avaliar, recomeçar sempre.
O eixo fundamental da Educação para o Desenvolvimento é a opinião pública, da qual todos fazemos parte. O objectivo é torná-la capaz de reflectir e de agir no sentido da alteração de situações que provocam desiquilíbrios e injustiças a nível individual e colectivo Dela - de sectores específicos que a compõem - podem surgir a perspectiva crítica, a convicção, a capacidade de reivindicação e os meios (lobbying e advocacia) para enfrentar os poderes, a fim de se estabelecer um diálogo implicando a mudança de decisões, sempre que necessário. Nas nossas sociedades verifica-se o reforço, sob diversas formas, da "sociedade civil". É uma realidade em mutação constante, que enfrenta múltiplos desafios e interrogações, quantas vezes sem resposta. Mas crescentemente as mulheres e os homens de hoje parecem não querer permanecer inertes face ao seu próprio futuro e ao das gerações vindouras. Mudar mentalidades e atitudes é um imperativo. E Educação para o Desenvolvimento está no centro deste debate e deste combate.
Tradicionalmente na dependência estreita do contexto em que nasceu a Educação para o Desenvolvimento, esta era vista como uma "sensibilização da opinião pública do Norte sobre os problemas dos países do Sul". Na actualidade, educar para o desenvolvimento é uam tarefa urgente em todas as sociedades, do Norte, como do Sul. Não há receitas de "como fazer" - o conhecimento das pessoas, das situações, dos desafios que se colocam em cada espaço e em cada momento, as opções quanto aos objectivos que se querem alcançar, constituem os pontos de partida essenciais.
As ligações privilegiadas serão aquelas que se podem estabelecer entre o individual e o colectivo, entre o local e o mundial, entre o passado e o futuro. Partir de nós próprios, do nosso ambiente, da nossa cultura e descobrir as conexões com as outras escalas e as outras culturas, para melhor compreendermos as raízes de muitos dos nossos problemas, para vermos com mais clareza que contribuições estaremos aptos a dar para a concretização das mudanças que preconizamos.
Neste contexto, aparecem como fundamentais as alianças entre actores e iniciativas de países do Norte e de países do Sul, entre projectos e programas de Cooperação para o Desenvolvimento e de Educação para o Desenvolvimento. É cada vez mais possível e frequente a criação de "parcerias" e de "redes", que aproximam e motivam para a acção pessoas e organizações com preocupações e objectivos comuns.
Escolas, sindicatos, grupos informais, associações de cidadãos de todo o tipo, podem e devem ser promotores activos da Educação para o Desenvolvimento. As Organizações Não-Governamentais de Desenvolvimento (ONGD), por natureza mais directamente ligadas às questões do desenvolvimento e aos desafios concretos que elas colocam em vários continentes, têm potencialidades específicas para estabelecer elos e contribuir para a criação de sinergias neste domínio.
No entanto, todos sabemos como diariamente ocorrem transformações significativas no mundo em que vivemos. Precisamos por isso de rever sempre os dados adquiridos, de ir enriquecendo a nossa compreensão dos fenómenos e acontecimentos que tecem a realidade visível e invisível, de recriar as cumplicidades estabelecidas, de ir conseguindo inscrever as nossas acções numa visão de longo prazo.
Não há uns que educam e outros que são educados, o que se exige é uma atenção mútua e trocas permanentes. A esta nova etapa podemos começar a chamar "aprender para o desenvolvimento".
Luísa Teotónio Pereira
Artigo publicado na revista Forum DC
-Desenvolvimento e Cooperação, (2), Jul.-Out. 2002 e
actualizado em Maio de 2003