HOMENAGEM A AMÍLCAR CABRAL
Todos os anos, por esta altura, há iniciativas de
homenagem a Amílcar Cabral. Hoje foi-me pedido que desse um contributo
específico, que pudesse também ser um ponto de partida para um debate,
uma reflexão entre todos os presentes.
Como homenagear Amílcar? Reflectir sobre o quê? Gostaria de
partir de dois pontos relativamente simples: Cabral é um património e é
também uma fonte de inspiração. Estas duas razões seriam já suficientes
para lhe prestarmos a nossa homenagem.
Amílcar Cabral é um património valioso, e não só da
Guiné-Bissau e de Cabo Verde, porque lutou pela liberdade dos seus
povos, mas também de todo o mundo, porque a sua visão era universal, se
inscrevia numa corrente de pensamento e de acção do seu tempo e nela
abriu novas perspectivas, com amplas repercussões. Um património tem de
ser cuidado, porque o tempo e o uso - ou o esquecimento - tendem a
degradá-lo. Cuidar de uma preciosidade imaterial, como a vida e a obra
de uma pessoa é sobretudo conhecê-la, compreênde-la cada vez mais
profundamente, nos seus vários matizes, nos seus vários desdobramentos,
no seu contexto histórico e nas suas leituras e implicações
contemporâneas. E dá-la a conhecer, partilhá-la, porque vale a pena.
Vale a apena porque podemos aprender sobre a cultura, a
história, as sociedades da Guiné-Bissau, de Cabo Verde, de Portugal, de
África, sobre as lutas de libertação, o colonialismo, o que moldou e
marcou gerações inteiras... Vale a pena porque podemos acompanhar o
processo de aprendizagem de um homem que viveu simultaneamente várias
culturas, que descobriu as realidades dos povos que lhe deram origem e
os desafios do mundo em conturbada mudança e conseguiu ir elaborando e
comunicando as suas próprias sínteses de todos estes vectores... Vale a
pena porque o seu pensamento era alimentado pela acção e era fonte de
novas iniciativas, estava virado para os camponeses africanos,
aparentemente desprovidos de qualquer poder e para os decisores
mundiais que julgavam comandar, sozinhos, o futuro do mundo... Vale a
pena porque quebramos estereótipos como, por exemplo, o de que África
não criou líderes mundiais ou pensadores marcantes ou o de que os
pequenos países têm como fatal destino permanecer sempre na
obscuridade, ou ainda o de que propostas de há várias décadas estão,
por natureza, fora de prazo...
Isto quer dizer que este património não é inerte. Ele pode ser
fonte de inspiração - o que não quer dizer imitação, nem transposição
mecânica para outros contextos, nem saudosismo, mas incentivo à
continuação da reflexão e da intervenção.
Podemos inspirar-nos nos valores de Cabral, ou nas suas
metodologias de análise, ou na sua capacidade de conceber e tornar
realidade acções no quadro de um projecto de longo alcance, ou na arte
de comunicar as suas ideias fundamentais a vários tipos de públicos e
de convocar e congregar pessoas, grupos, comunidades, para pensar e
lutar por finalidades comuns.
Hoje diríamos que ele conseguiu distinguir o essencial do
acessório, conseguiu conceber uma visão estratégica que guiou o combate
pela liberdade em tempos muito difíceis, identificou, formou e
contribuiu para criar condições para que se formassem recursos humanos
capazes de dar corpo aos objectivos tornados colectivos, deu a vida
pelas causas em que acreditava. Não sem hesitações, não sem
contradições, não sem erros - também estes devem ser apreendidos, são
parte do mesmo património e com eles se pode aprender.
Agora vivemos igualmente num mundo e num tempo perturbados e
perturbadores. Procuramos saídas para as crises e alternativas a
modelos de vida e de sociedade esgotados, que aprofundam as injustiças
actuais e colocam em perigo o futuro. É importante, uma vez mais,
tentarmos perceber o que se passa, formularmos grandes objectivos,
desenharmos todos os passos, a partir do chão que pisamos, para os
conseguir alcançar e deitarmos mãos à obra. Experimentar, com outros, o
que fazer. E, fundamental - como fazer. Persistir, repensando e
ensaiando.
Hoje, nada se faz isoladamente. As nossas sociedades são
abertas, interdependentes, peças de um puzzle gigante cujas peças estão
em constante movimento, movidas por forças de dentro e de fora, do
passado e do presente, de interesses muito diferentes - e quantas vezes
divergentes e contraditórios - de experiências e visões diversificadas.
Nada é simples. Tudo é mais e mais complexo. Guias feitos à medida
deixaram de existir. Resta-nos procurar, partilhar, reforçar aqueles
trilhos com os quais nos identificamos.
Neste percurso, há que diagnosticar fragilidades,
necessidades, mudanças indispensáveis, às vezes urgentes. Mas isso não
basta. É preciso também descobrir recursos: uns claramente disponíveis,
outros escondidos, alguns embrionários ou potenciais, a reforçar. Será
com os recursos que temos que poderemos criar novas soluções e
construir respostas às inquietações que sentimos.
Falamos em "nós". Nós, somos todos os cidadãos. A começar
pelos que estamos aqui e pelos que nos ouvem, em várias partes do
mundo. Se fossemos atentos, activos, capazes de estabelecer pontes, de
procurar caminhos, de reunir forças, quantas coisas novas não poderiam
acontecer? A sociedade civil tem muito para dar, se se organizar para
intervir a favor de um mundo mais justo e equitativo. É a esse papel
que temos de dar força.
Poderia dar muitos exemplos. Mas arrisquei escolhar um único.
Estamos em Portugal. Amílcar Cabral é filho da Guiné-Bissau e de Cabo
Verde. Há, entre nós, um outro património pouco conhecido e reconhecido
- as comunidades migrantes e as suas associações. Elas vivem
simultaneamente várias culturas, fazem a ponte entre várias sociedades.
Contribuem para o desenvolvimento não só do país de acolhimento, como
do país de origem. Homenagear Amílcar Cabral pode também ser assim.
Luísa Teotónio Pereira
19 de Janeiro de 2005
Intervenção na sessão de Homenagem a Amílcar Cabral organizada pela
Bolanha - Associação Guineense de Quadros e Estudantes e pela
Associação Guineense para a Paz e Democracia.