Tu vives - mãe adormecida -
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem...
Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
- os sonhos dos teus filhos -
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!
Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
- terra dura -
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!
Amílcar Cabral, Praia (Cabo Verde), 1945
1924, 12 de Setembro: Nasce em Bafatá, Guiné
1932: Vai para Cabo Verde
1943: Completa no Mindelo o curso liceal
1944: Emprega-se na Imprensa Nacional, na Praia
1945: Com uma bolsa de estudo, ingressa no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa
1950: Termina o curso e trabalha na Estação Agronómica de Santarém
1952: Regressa a Bissau, contratado para os Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné
1955: O governador impõe a sua saída da colónia; vai trabalhar para Angola; liga-se ao MPLA
1956: Criação em Bissau do PAIGC
1960: O Partido abre uma delegação em Conacri; a China apoia a formação de quadros do PAIGC
1961: Marrocos abre as portas aos membros do Partido
1963, 23 de Janeiro: Início da luta armada, ataque ao aquartelamento de Tite, no sul da Guiné; em Julho o PAIGC abre a frente norte
1970, 1 de Julho: O papa Paulo VI concede audiência a Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos
1970, 22 de Novembro: O governador da Guiné-Bissau decide e Alpoim Calvão chefia a operação "Mar Verde" destinada a capturar ou a eliminar os dirigentes do PAIGC sediados em Conacri: fracasso!
1973, 20 de Janeiro: Amílcar Cabral é assassinado em Conacri
1973, 24 de Setembro: Nas matas de Madina do Boé, o PAIGC declara, unilateralmente, a independência da Guiné-Bissau.
Nos 70 anos de Amílcar Cabral
Pouco antes de morrer, o meu pai intelectual – Mário de Andrade – desenhou uma tarefa importante para os dois: escrever um livro sobre a actualidade do pensamento de Amílcar Cabral, vinte anos depois da sua morte. A sua saúde precária e as minhas inúmeras ocupações não permitiram que esse sonho se tornasse realidade na data de comemoração desses vinte anos, 1993.Outra data importante, a recente celebração do septuagésimo aniversário do nascimento de Cabral nos interpela de novo. É mais forte do que nós! Cada vez que uma destas datas se afiguram no nosso raciocínio, sentimo-nos devedores de uma lembrança ou recordação. Porque Cabral representou, e continua a representar, o equilíbrio perfeito entre a cultura e a política, entre a ética e o objectivo, entre o presente e o futuro.
Só hoje me dou conta que tudo isso se deve à forma como Cabral concebia a ideologia. Para ele o mais importante era desenvolver o processo onde a participação oferecesse às pessoas o desejo de contribuir. Era didáctico com os que precisavam de didatismo, mas não directivo com os que queriam asas para voar. Concebeu a luta armada de libertação nacional como um acto de cultura, uma demonstração da capacidade organizativa de um povo.
Mas estava também consciente dos limites do seu sonho. Sabia que tinha seguidores desconfiados, e até traidores da causa. Para eles utilizava ainda mais persuasão até estes se marginalizarem por si próprios do poder. Cabral era capaz de activar pela mobilização, interesses e capacidades ocultas. O seu slogan “Unidade e Luta” conseguia reunir todos à volta de uma interpretação única do que deveria ser a unidade (dinâmica e não estática) e a luta (por um conjunto de valores mais do que contra pessoas).
É interessante como todos estes princípios constituem hoje os pilares do novo paradigma de desenvolvimento, o desenvolvimento humano sustentável. É curioso igualmente notar como os métodos de gestão política de Cabral fizeram milagres, seguindo, naquele tempo e contexto (as matas da Guiné-Bissau) a filosofia que modernas escolas de gestão ensinam hoje em dia.
Estou seguro que os graduados de Harvard não leram Cabral. A sua projecção académica pode ser considerada importante mas não tem visibilidade na “aldeia comum”. Precisamente porque de comum essa aldeia tem mais sobreposição e dominação do que diferença e identidade. A isso chama-se a tendência pragmática (a da visão dominante do mundo, evidentemente).
De facto, trata-se bem mais de ideologia, aquela mesma que Cabral articulava com a sabedoria do mestre. Para ele era importante que se desenvolvesse uma identidade e objectivos específicos ligados à realidade. Como lhe parecia que a África não o fazia, costumava repetir que o grande problema de África era a ausência de ideologia.
A teoria dos tempos livres acabou por dar razão a Cabral. Na ausência de vontade própria, articulada pelos africanos, cada vez mais estes absorvem a vontade dos outros. Mesmo que esses “outros” tenham a melhor das intenções, o resultado é o que se vê.
Como contrariar a tendência?
Uma das inúmeras iniciativas a empreender é certamente um estudo detalhado da personalidade paradigmática de Amílcar Cabral.
Quando este morreu disse-se que muitos outros Cabrais se multiplicariam para vencer o colonialismo e construir a Nação. O colonialismo foi vencido, é certo. Mas a nação, essa, continua a deambular pela floresta à procura do seu filho que incansavelmente repetia “esperar o melhor, mas preparar-se para o pior”!
CARLOS LOPES
in "CIDAC: Cooperação, Informação, Desenvolvimento", nº2 (Jul, Ago, Set 94)