APRENDIZAGEM INTERCULTURAL - aprendizagem sobre nós próprios

Não é propriamente novidade falar da diversidade cultural, do multiculturalismo, da relação entre culturas, do choque cultural ou até mesmo da aprendizagem intercultural. Não é novidade e não, para muitos, sequer pertinente. E, no entanto, a aprendizagem intercultural - aprender a conhecer diferentes culturas e a gerir essas diferenças - é hoje um vector central no trabalho de indivíduos e organizações pela procura de mecanismos de desenvolvimento das sociedades mais justos e mais solidários.

Se insistimos hoje em dia na aprendizagem intercultural é porque acreditamos que um mundo justo, não-violento e democrático só pode ser construído através do diálogo e da compreensão mútua e baseado no respeito incondicional da igualdade entre diferentes culturas - e não através da força, da imposição de culturas dominantes ou da divisão arbitrária entre os bons e os maus, os normais e os outros.

Em contextos de trabalho e de vivência multiculturais o reconhecimento da importância da relação intercultural é particularmente pertinente. È fundamental sermos conscientes e estarmos criticamente atentos a dinâmicas por vezes dissimuladas ou camufladas de estereótipos e preconceitos, de intolerância, de dominação de culturas e identidades. São estas mesmas dinâmicas que muitas vezes se opõem à relação intercultural e que tantas vezes se transformam em pânico para muitos dos homens e mulheres dos nossos tempos dando lugar ao racismo, à xenofobia, à discriminação e ostracismo.

Deste ponto de vista, e atendendo ao processo educativo que procuramos promover, abordar a relação intercultural implica antes de mais questionar-nos sobre a relação que estabelecemos connosco próprios (e o medo da perda de identidade), a relação que estabelecemos com o outro desconhecido (e as imagens estereotipadas e preconceitos em relação aos outros), a relação que estabelecemos com o outro diferente (e as atitudes e comportamentos discriminatórios) e a relação que estabelecemos com as minorias (e as comunidades de cultura dominante).

Entrar no mundo da aprendizagem intercultural significa pois entrar no mundo da complexidade e da ambiguidade. Esta percepção é em si mesma, e desde logo, uma aprendizagem importante.

Mais do que "aprender sobre as outras culturas e a relação entre si" a aprendizagem intercultural é uma aprendizagem sobre nós próprios e a forma como funcionamos perante o diferente, o desconhecido e o ambíguo.

Conhecendo como funcionamos saberemos mais facilmente encontrar as respostas específicas adequadas às pequenas situações do quotidianoque nos interpelam. É isto mesmo que procuramos do ponto de vista pedagógico e metodológico quando abordamos a aprendizagem intercultural - um questionamento crítico sobre nós e sobre os outros, procurando fornecer um conjunto de instrumentos que nos permitam analisar criticamente e melhorar o nosso trabalho e o conjunto das relações interculturais que estabelecemos no nosso meio específico.

O CIDAC encontra-se a desenvolver um programa de formação, que tem como objectivo a sensibilização do público para as questões do desenvolvimento, das migrações e da equidade social. Ao propor este programa de formação, e em particular as acções de formação em aprendizagem intercultural, o CIDAC procura não só contribuir de forma concreta e pragmática para uma aprendizagem intercultural mais consistente e alargada, mas sobretudo possibilitar um espaço de reflexão e desenvolvimento pessoal e colectivo em torno desta problemática.

Luís Pinto
CIDAC - Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar CabralArtigo (Artigo publicado em Julho de 2004 no Boletim SEM FRONTEIRAS)